Conto bizarro/reflexivo:
Um berne em minha vida!
Há dias aquilo o incomodava. Não era como as outras espinhas que tivera. Era diferente.
Coçava muito, mas não doía. E coçava tão gostoso quanto o mais bem quisto bicho de pé de sua infância no interior.
Por dias ela permaneceu em suas costas, fazendo com que sua presença já não o incomodasse tanto. Saíam juntos nas caminhadas de fim de tarde. Estava com ele nas filas do banco ou nos bate-papo do barzinho. Sempre ali, a mesma coceirinha de sempre.
E assim seguiu-se por semanas até que começou a sentir como se sua espinha o estivesse mordendo! Queixou-se à esposa e esta por sua vez diagnosticou de forma convicta de que não se tratava de uma simples inflamação sub-cutânea.
Tratava-se de um berne. Um parasita que estava se alimentando dele!
A idéia de que um ser vivo se desenvolvia em seu interior lhe revirou o estômago.
Mais do que isso, a idéia de que o relacionamento de ambos era falso, meramente preenchido pela necessidade de um lugar seguro e farto, do qual a larva pudesse tirar proveito.
Sentiu-se traído! Como fora tolo! Levou seu falso companheiro para vários lugares, dividiu seu banho, seu sono, suas horas de lazer com ele! E era assim que lhe seria retribuído?
Tomado pela ira não teve outra atitude senão expulsa-lo!
Juntou esparadrapos, gazes e um farto, gordo e ensebado, pedaço de toucinho de porco.
Fixou o naco de carne sobre o Judas e o prendeu com os outros itens que havia buscado.
Pronto! Estava feito! O verme nunca resistiria à tamanha iguaria. E quando este passasse para o toucinho, ele o jogaria fora. Sua vingança estava arquitetada e em andamento.
Poderia agora se dedicar a um novo amigo. Não teve dúvidas senão adotar como companheira aquela cachorrinha que sua esposa trouxe para dentro de casa.
Engraçado como nunca tinha notado quão melhor amiga seria ela, ao invés do berne. Era impressionante para a cachorra, como o cheiro dele lhe era bem mais atraente do que o de sua dona. E assim passaram-se os dias. Ele, o toucinho, o berne e a cachorra.
E foi que ele teve uma sensação estranha e mexendo nas costas retirou a armadilha que havia preparado. Quando olhou para ela, viu um profundo túnel cavado ali pelo falso amigo. E ainda mais, pode vê-lo empanturrar-se, sem saber do destino que o aguardava. Na verdade, nem notou quando foi depositado no frio, escuro e fétido saco de lixo. Era o fim do falso amigo ou começo de uma nova vida, caso não perecesse.
Livre! Era assim que se sentia o homem...Seria jocoso e ambíguo dizer que ele sentia como se tivesse tirado um peso das costas, mas ainda assim, verdadeiro.
Voltou-se para sua nova amiga, a pequena cachorrinha. “Que fique com o lixo!” -pensou ele. Agora ele tinha uma amiga que não teria motivos secretos ou obscuros para compartilhar os momentos com ele! Ele a alimentava, dava-lhe o que beber, fornecia-lhe um teto, brincava e o carinho para ela era farto. Não havia nada subjetivo nesta relação.
Mas com o passar das horas, conforme os dias começavam e terminavam, ele notou que sua amiga não o procurou mais desde que ele se livrou do parasita, valendo-se de sua engenhosa armadilha. Teria ela receio de ser descartada? Será que sua amiga tinha medo que ele fizesse o mesmo com ela?
Com certeza era isso! Ele não tinha dúvidas e sem perder tempo, correu pela casa procurando-a.
Encontrou-a próxima da pia mastigando algo. Notou com o canto dos olhos que o saco de lixo, agora o jazigo de seu antigo companheiro estava rasgado. E aproximou-se de sua amiga para ver o que ela comia tão vorazmente e ao mesmo tempo para explicar-lhe que não iria livra-se dela. Foi subitamente interrompido em seus pensamentos por uma investida violenta da cachorra em direção ao seu rosto. Como o lobo que defende a carniça de possíveis ladrões.
Aturdido e desperto ao mesmo tempo, percebeu que o vínculo de amizade entre ele e a cachorra, só se fez possível pelo pedaço de carne que carregou nas costas enquanto seu relacionamento envelhecia. Enquanto ele buscou um novo amigo, alguém que o fizesse esquecer a traição da larva, a cachorra foi atraída pelo cheiro e a promessa de um possível desjejum fora de hora.
Ele parou e pensou: “– No fim, fui vitorioso! Tratei-os bem e fui traído por ambos. Mas agora eles têm tudo e ao mesmo tempo nada têm. A larva, agora tem um novo hospedeiro, do qual irá alimentar-se e tirar proveito, mas pode morrer caso seja digerida por hospedeira. A cachorra teve seu suculento pedaço de carne e um verme que irá se alimentar dela e causar-lhe dor e desconforto, caso sobreviva. Eu tive momentos felizes e agradáveis tanto com um quanto com o outro. Não tenho do que me queixar, nem com o que me preocupar”.
Continuou sua vida desde então. Sem berne, sem cachorra. Só ele, seu melhor e verdadeiro amigo.