(
EMBROMAR) RECORDAR é viver:
-Lembram do blog do BAR DO MARIÃO? Provavelmente não, mas mesmo assim, como na época de natal fazem questão de tornar as reprises tão populares na t.v., nós não poderíamos fazer diferente. Com vocês...
O dia em que o Marião morreu
Há alguns anos atrás, antes de eu ir para o Exército e o Caco vir me substituir como balconista do bar, aconteceu algo que se não fosse cômico, seria bem trágico.
A
"morte" do Marião...
Era uma quarta feira lá pelas nove horas da manhã, quando percebi que o Marião não estava muito bem. Fui logo dizendo:
- Marião, você parece meio desanimado, o que foi?
- Ah, não sei não tô me sentindo legal desde ontem. Acho que tô precisando descansar um pouco disso aqui...
Como para bom entendor meia pingo no "i" é letra, fui logo dizendo:
- Seguinte, então tira o dia pro senhor descansar que eu tomo conta do bar.
Pode ir tranqüilo, hoje é quarta e o movimento não tá lá aquelas coisas mesmo.
- Ah, não sei não... Meio foda deixar você sozinho...
- Vai! Pode ir! Melhor eu
pagar pau, do que o senhor ficar aqui mais morto do que vivo!
- Tá bem então. Vou lá pra cima descansar então, -disse ele apontando para o sobrado onde morava, em frente ao bar- qualquer problema você me chama tá certo?
- Falou, Marião. Vai na fé...
Então, após me passar algumas recomendações sobre alguns vendedores que passariam no dia, ele saiu, já um tanto quanto recuperado, somente pelo fato de tirar uma folga.
E lá fiquei eu mofando até que a figura de Seu Brás apontou na esquina, me acenando de uma forma cuidadosa, como se seu braço pudesse cair com um movimento mais brusco.
-Tudo bem Seu Brás? Aquela geladinha de sempre hoje?
-I-i-i-sso, Da-Da-Danilo. Be-be-bem geladinha.
Sim, Seu Brás é gago. dizem que ficou assim depois de uma desilusão amorosa muito grande. Teve que criar sozinho seus quatro filhos pequenos. É, realmente, ele segurou uma pusta barra...
Assim, me dirigi até o freezer para trazer-lhe seu provável desjejum. Mal terminara de abrir a garrafa, quando o telefone público do lado de fora do bar começou a tocar.
Não sei se pela possibilidade de ser algo importante ou pelo fato de não estar a fim de ouvir as mesmas histórias do senil freguês que acabara de chegar, fui logo atender o telefonema.
- Alô, Big Mario's Pub!
- Alô!! Quem tá falando?
- Aqui é o Danilo. Quem gostaria?
- Danilo?? O filho do Marião??
- O próprio! Por que? Quem tá falando?!
- Pô Danilo, como que você tá depois de tudo isso?
- E..eu tô bem! Mas depois do quê?
- Ai meu Deus! De certo não te falaram ainda! Ai que burro!
- Caralho! Quem é que tá falando?
- Aqui é o Jairo! Da Wolks, que trabalhou com se...seu pai!
- Caramba Jairo, pra que esse desespero todo? Aconteceu algo? Você quer falar com meu pai?
- Todo mundo na fábrica queria ter tido essa chance, mas agora...Ai meu Deus.
Depois a gente vai aí tá certo . Manda os pêsames de todos os amigos aqui da fábrica pra D. Cruz.
- Tá eu digo sim, té mais Jairo.
Após desligar o telefone e me dirigir para o bar...
- Cada uma Seu Brás...O cara me liga aqui pra dar os pêsames pra D. Cruz!! Porquê será?
- Ihhh...de-deve sa-sa-ser porque o Palmeiras pa-pa-perdeu ontem. E como ele go-gosta do va-va-verdão!
- Ahhhhhh sóóóó!! Hahha, eu devia ter agradecido pro cara.
E assim Seu Brás continuou "mamando" sua Kaiser durante longas três horas, como de costume, quando do balcão pude ouvir duas vizinhas do bar dizendo:
- Onde já se viu. Até no dia de hoje esse rapaz abre o bar! Devia ter vergonha!
- Realmente! Eu nunca fui muito com a cara dele. Aquelas roupas rasgadas, o cabelo estranho! Agora então...
- Não olha pra mim Seu Brás, continuo sem entender nada.
Alguns minutos depois D.Cruz entrou apressadamente como sempre, dizendo:
- Danilo, tenho que cuidar da documentação do seu pai. Por isso não vou poder fazer almoço hoje. Mas trago marmitex. Não deixe ninguém incomodá-lo porque ele está dormindo. E se sua tia me ligar, diga à ela que fui ao fórum e na contadora, entendeu?
Fiz que sim com a cabeça, embora estivesse atento à três carros que chegaram simultaneamente.
Reconheci logo todos os ocupantes dos veículos, todos amigos do Marião da época em que ele trabalhou na Wolks. Inclusive o Oberdan estava com eles.
Mas o que mais me chamou a atenção, foi o horário que eles estavam chegando. Afinal todos trabalhavam das 4:30 até 16:00. E eram 13:30!
Como de costume cumprimentei Oberdan com uma brincadeira:
- Putaquepariu! Essa Wollks é uma mãe mesmo! Já de boa em casa!
Eles entreolharam-se, fizeram silêncio e Oberdan disse:
- Você realmente é uma pessoa muito forte! Tendo coragem para ficar aqui assim. Apesar de tudo não perdeu o bom humor! E a D. Cruz onde está?
- Ela foi cuidar dos documentos do Marião. Ele até que podia fazer isso mas, como ele foi descansar...
- É Danilo, ele poderia sim...Ai meu Deus...
- Eu pensei que ele não soubesse...-susurrou Jairo para os outros.
- Não soubesse de quê?
- E sua mãe como está??-interrompeu Luís antes que me respondessem...
- Ela tá meio injuriada por ontem, mas já tá acostumada com isso, igual ao Oberdan, hahahahha!!
- Confesso que ainda não me acostumei com a idéia, oh meu Deus!!
Como ele pode ter ido assim?!?
- Ido? Ah, Oberdan fica tranquilo, não precisa chorar! Seu time ir pro exterior ruim como estava já era esperado! E a derrota também...
- Qu...Que time!? Estou falando do seu pai!
- Vocês tem que entender que ele estava cansado. Faz tempo que ele etava precisando disso!Acho que até foi bom ele se desligar um pouco daqui e ir lá pra cima...
- Como assim? Eu acho que as pessoas tem que superar os traumas, mas assim já é demais!!
Como você pode estar assim tão calmo?
- Estando horas. Sabe, eu até acho que ele devia ir pra terra natal dele, Lagoinha, sabe...
- De acordo!!-aplaudiu Jairo- Foi lá que nasceu e é lá que tem que ser enterrado!
- Como assim enterrado? Meu pai não morreu! Ele só está lá em cima descansando!
E todos dizem em coro:
-Nós sabemos Danilo, nós sabemos.
Nisso, Sandro, o vendedor da Skol chega todo sorridente, afinal não foi sem mostrar os dentes que ele ganhou o apelido de "Eddie Murphy".
- E aí moçada! Que é isso reunião da Wolks?
- É Sandro, de certa forma, embora esses caras estejam agindo meio estranho hoje.
Foi quando Luis não aguentou e expoldiu:
- Também não é para menos!!! O Marião morreu!!!
- Quê como assim morreu?? Ele tava aqui agora a pouco!
- Ai meu Deus então o ataque cardíaco foi há pouco!
- Caralho Jairo, que ataque cardíaco? Você me ligou pra isso?!
- Calma!! Negócio é o seguinte moçada. Se o Marião morreu, então meu celular tá pegando interferência do além, porque o ele acabou de me ligar no celular dizendo para eu passar aqui! -esclareceu Sandro.
- Caralho! Eu vi isso no Gugu domingo passado!
- Cala a boca Jairo!! Quer dizer que o Marião não morreu!?
- Se morreu, Oberdan, então esse carecão parado aqui na porta é coisa que nem o Padre Quevedo explica, hahahhahahahahhaa. E Marião, quantas caixas de skol hoje?
- Caramba seus fedidos!!! Que cara de susto são essas? Nunca viram macho não?
- Tão vendo, não falei que meu pai não morreu!
- Eu morri? Quem disse isso Oberdan?
- O Luis! Porra, você não disse que o Marião tinha morrido?
- Porque o Jairo disse pra mim!
- Calma pessoal, eu só disse o que o João Carlos, aquele cara da pintura tava dizendo ontem!
-O João carlos?! Ele chegou bebâdo aqui no bar, eu dei umas porradas nele e mandei embora daqui. Ele até ameaçou me matar e tudo o mais....
- É Marião, parece que ele conseguiu te matar sim.
Pelo menos de mentirinha... HAHAHAHAHAHA! Quantas caixas mesmo?
Eu já havia ouvido falar em "propaganda de boca". Agora, assassinato, foi a primeira vez..